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Querida Amiga:

Hoje escrevo-lhe de olhos cansados e as olheiras que, pudesse eu da sua companhia disfrutar, poderia ver que em nada correspondem ao teor da anterior missiva. Na realidade, apenas pude conviver com as virtuais companhias por momentos, apenas até ao instante em que os ocupantes do quarto por cima do meu resolveram exercitar a fina arte da insónia em quarto alheio. Saltos altos e televisores no máximo até ás três da matina nunca foram incentivo ao sono.

A coisa correu de tal forma que a reunião a que forçosamente tive que assistir se tornou num exercício de força de vontade, ponteado aqui e ali pelo mais completo alheamento a numerologias de estratégias e objectivos, coisas que, como sabe, tomo como obrigação e não como diletâncias a que outros corresponderão com a maior das vontades. Não nasci para a ditadura dos números.

Talvez seja por isso que o dia acaba ainda mais deprimente. Hoje o lobby do hotel está pejado de conferencistas de uma qualquer reunião de empresa relacionada com combustíveis e lubrificantes. Não querendo maçá-la com escusados pormenores, apenas faço nota de generalidades: o “dresscode” da noite é “casual”, o que significa usar um fato sem gravata, os sorrisos são parvos. A dinâmica de grupos é quase transparente e, embora alguns possam estar convencidos de não transparecer as suas ansiedades, a verdade é que são de imediato notados os líderes dos grupos, tal é a vassalagem prestada pelos restantes que se movem em círculo em seu torno. As movimentações alternativas resumem-se à costumeira dança de pavões em redor de fêmea receptiva, coisa que, pelas minhas observações, em nada dá nestas circunstâncias específicas, pelo menos a maior parte das vezes.

Mas resulta o exercício de observação em gáudio ou, no mínimo, na saudável obliteração da sua imagem nestes instantes em que me entretenho. Fosse eu dono da minha morfina e prometer-lhe-ia sonhar consigo. Como o não sou, prometo-lhe apenas adormecer na sua companhia em meus pensamentos.

Amanhã regressarei e serei, uma vez mais, seu. Não a maçarei mais com coisas que de interesse nada revelam e peço-lhe desde já as devidas desculpas pela banalidade desta missiva, sem dúvida fruto deste cansaço que me tolda a inspiração.

Com saudade,

o seu Dactilógrapho